Depois do ‘bicho’ ter aparecido
em 2019 (daí o nome Covid-19) mas de só ter sido levado a sério em inícios de
2020, alterou-se praticamente tudo aquilo que para nós era tido como “normal”.
A nossa vida mudou, as regras mudaram, as “liberdades” ficaram condicionadas… e
isso dura até hoje (e há-de durar) pois a pandemia continua.
Outra pandemia, a que já vem de
longe e que assola o meio taurino, essa também se manteve em 2021. Do que falo?
Da falta de profissionalismo dos agentes e artistas, da carência de exigência
por parte das bancadas, da falta de toureio (pôr ferrinhos é outra coisa), da pandemia
dos triunfos inventados…
Hoje em dia a vida dos nossos
artistas está muito centrada nas redes sociais, e a maioria com uma fonte comum
(leia-se que um só trata das páginas de quase todos…). Pelo que se será bom
profissional, se se “vender” bem no facebook. Pois nas “redes” todos toureiam
bem, todos triunfam… e como é bonita a festa. Já não bastavam as crónicas (mal)
entendidas com floreados e os “benzinhos”, este mundo das redes sociais tanto
dá (proximidade, notícia ao momento,…) como tira, e infelizmente ensina-se mal a
quem pouco ou nada sabe.
Contudo, algumas análises há a considerar
de 2021. Uma temporada taurina que iniciou tardiamente mas que esteve mais
preparada face às restrições e limitações que, com o decorrer dos meses, foram
aliviando. Pelo que houve quem este ano se atrevesse a montar espectáculos que
a pandemia privou em 2020, e muitas vezes com algum aproveitamento da situação
que vivemos. Cobraram-se preços altos aos aficionados mas pagaram mal a
toureiros, apresentaram-se toiros passados da idade a preço de liquidação, cartéis
repetitivos e sem interesse. Ninguém se queixou? Pois, é a crise do aficionado
que não sabe o que está a ver e a pagar.
Ainda assim, em termos
empresariais, destacamos três situações. A empresa de Ricardo Levesinho
recreou-se, arriscou, deu especial força ao toureio a pé, principalmente o
nacional. Não temeu a quantidade e teve por resposta a qualidade. As feiras taurinas
montadas em Vila Franca e Moita do Ribatejo são disso exemplo. Luís Miguel
Pombeiro, pelo segundo ano consecutivo ao leme do Campo Pequeno, voltou a ser
um ‘sobrevivente’ em Lisboa e a própria temporada ali montada foi de
“sobrevivência” com apenas 6 espectáculos… A afición da capital repetiu a sua
já habitual inconstância quando toca a marcar presença nos festejos e impera por
isso que o Campo Pequeno tenha de futuro uma temporada séria, competitiva e com
mais datas… afinal, falamos da primeira Praça de Toiros do país! Já a
Associação ‘Praça Maior’ levou a efeito este ano, dois dos três cartéis inicialmente
previstos para 2020 e deu por finalizada a sua gestão. De forma desinteressada,
leia-se sem lucros, cumpriu os objectivos e entregou obra feita. Mais como eles
houvesse…
Nos Forcados o domínio dos
cartéis continua a ser dos “grandes”, dos “antigos” mas é com os novos Grupos
que a festa às vezes mais rejubila. Referimos dois mas outros tantos poderiam
ser mencionados: os Forcados Académicos Coimbra destacaram por onde foram
passando, principalmente na sua estreia no Campo Pequeno e honraram a memória
de quem sempre apostou neles. Outro Grupo que manteve a sua consistência foi o
dos Amadores de Monsaraz, sempre prontos para qualquer “guerra”.
O Toureio a Pé continua a penar
com o estigma (falso) que não leva gente à praça… e talvez não leve, porque a
bem dizer, verdadeiros aficionados há-os cada vez menos. Público, esse ainda há
bastante. E por isso não são valorizados como deveriam ser os nossos matadores,
novilheiros… João Silva “Juanito” conquistou um estatuto. Sobressaíu e mereceu
honras até de encerrona. É, para muitos, a figura que Portugal esperava para
elevar o toureio luso nos tempos que correm. Cá, já ganhou a importância devida,
agora é preciso que lá fora também essa lhe seja dada e salte das praças de
‘fronteira’ para as ferias – e já aí
teve a ‘paga’. Olivença que noutras temporadas o apresentava nas novilhadas, e que muito sobrevive do dinheirinho lustiano, não o
inclui agora (nem a qualquer outro português) na sua Feira de 2022. Temos depois
outros nomes, a quem mais do que tudo temos que reconhecer o esforço que fazem
por se manterem, ano após ano, e tourearem tudo o que os empresários lhes dão a
tourear… E cito: António João Ferreira, que continua um verdadeiro diamante em
bruto, que se apresenta em praça com mais serenidade do que muitos artistas que
toureiam 20 corridas, mesmo que apenas toureie uma em toda a temporada (um
infeliz facto real); Manuel Dias Gomes mantém-se na luta e com muita entrega
em cada oportunidade que lhe é dada; e Joaquim Ribeiro “Cuqui”, por vezes
injustiçado, é um dos que merecia mais oportunidades e respeito por parte dos
empresários. De novilheiros, continuamos a ter uma fornada deles, como o Diogo
Peseiro, Filipe Martinho, Sérgio Nunes, João d’Alva, entre outros… Mas poucos
aguentam o sacrifício, o compromisso, a seriedade do toureio e a grande falta
de oportunidades. Oxalá a afición deles continue a resistir…
De cavaleiros, soaram cinco nomes
destacados de 2021: João Telles Jr. descobriu o seu registo, ainda que
repetidor mas que conquista e emociona as bancadas. Falta-lhe mais variabilidade
nas sortes, porque o toiro é quem manda e impõe o toureio. Francisco Palha
impactou quase sempre em cada lide mas continua a faltar-lhe a estrelinha da
sorte que o leve a manter esse impacto em todas as praças (continua a vacilar
no Campo Pequeno) e principalmente não teve sorte no final de temporada, que
não consumou por lesão. Marcos Bastinhas é mais toureiro do que muitos
‘pintam’, e por vezes é ‘encoberto’ pelo registo da "personagem popular" e
efusiva. Mas tem vindo a marcar pontos a cada temporada que passa, e a sério!
João Salgueiro da Costa é dos poucos que alinha pelo toureio de verdade, de
improviso, daquele que é feito baseando-se no toiro e não nas montadas. Falta-lhe
apenas a regularidade do princípio ao fim da lide, que todos os ferros sejam um
acontecimento, e não apenas um ou dois ferros por lide, pois queremos
(precisamos) de mais! Luís Rouxinol Jr., com menos anos de alternativa do que
qualquer um dos mencionados, tem o domínio e a virtude do saber lidar tanto os
bons toiros (quando os apanha) mas principalmente os maus, aqueles que qualquer
outro despacharia em três tempos por falta de argumentos. Ao Jr. falta que
tenha mais consistência do princípio ao fim de temporada e que deixem de o ver
como o “filho do Rouxinol” e mais, que entendam que a categoria de toureio (que
ele tem de sobra) não se conquista com apelidos e ‘sangue azul’.
De Ganadarias foi mais um ano
revelador de que a bravura se está a perder. Já não se sabe distinguir bravura
(uma investida submetida e humilhada com início, meio e fim), de acometidas de
génio e mansidão. Um mau princípio que já dura há anos e que tem dado os seus
frutos. Tem sido surreal a quantidade de toiros que voltam ao campo, sem
critério, muitas vezes a servir só para dar “cotação” ao seu representante… No
entanto, em 2021 o Rei da Festa ainda nos brindou em algumas ocasiões com
momentos de verdadeira emoção, que o digam os “graves”, os “veiga teixeira”, os
“charruas”, os “canas”…
Emoção a sério nas últimas
temporadas tem-nos chegado com os de prata, e 2021 foi mais um ano para
confirmar isso! São os nossos bandarilheiros os que realmente estão a elevar,
dentro e fora de fronteiras, o nome do toureio luso. Exímios nesse tércio
(qualidade adjacente ao longo da história do toureio a pé português), os
bandarilheiros nacionais são cada vez mais requisitados pelas Figuras do
Toureio do país vizinho, e também pelos nossos matadores claro, para integrarem
as suas quadrilhas e brilharem nas bandarilhas, sendo depois fortemente
elogiados e ovacionados onde quer que se apresentam. João Ferreira, Filipe
Gravito, Filipe Proença, Cláudio Miguel, João Oliveira, Jorge Alergias, Miguel
Batista… têm-nos dado esse orgulho.
E para mim, foi isto.
Agora para
rematar perguntam vocês: mas pode opinar muito, quem tão pouco viu em 2021?
Essa é a parte triste…não se precisa de ver muito, que isto anda sempre na
mesma!
Resta desejar um Santo Natal, que 2022 traga a normalidade de volta aos nossos dias e que a Tauromaquia se rodeie
de exigência, bom toureio e toiros bravos.
Texto e Fotografia: Patrícia Sardinha